Ontem, 15 de outubro, foi dia do professor, e para comemorar essa data muitos alunos e professores foram presenteados com um dia de folga, assim um não precisava olhar para o outro. Mas em muitos lugares essa folga foi transferida para o dia 28 deste mesmo mês, dia do funcionário público, quando os servidores públicos não trabalham, embora seja para eles um dia como os demais dias do ano. Hoje estou postando um texto que deveria ter sido postado ontem, homenageando os professores, pois estou participando de uma blogagem coletiva proposta pelo dono do blog
Ponderantes, mas entregar trabalhos atrasados era um hábito meu na escola, e aqui no blog sou ainda mais relapso. A minha homenagem consiste em lembrar de alguns professores com quem estudei, que foram bem marcantes. Ao contrário de outros, que não lembro nem o rosto.
Um professor de física com quem estudei no ensino médio é uma figura inesquecível. Ele dava aula quase sempre de porre. Entrava na sala trocando as pernas e ficava longos minutos olhando para o quadro, tentando lembrar aquelas fórmulas complicadas. Errava com freqüência contas simples de multiplicação ou divisão. Uma vez, tomado por um demônio altamente etílico, caiu entre as carteiras e ficou ali mesmo, até que foi exorcizado por um cafezinho poderoso. É provável que o diretor soubesse desse pequeno problema com o álcool desse professor, mas com certeza não soube pela boca de nenhum aluno. Todo mundo gostava dele. Tínhamos liberdade para fazer bagunça na aula, as provas eram incrivelmente fáceis e podíamos até mesmo pedir a prova do colega emprestada. O chato era que ele não comprava cerveja quando nós pedíamos.
No ensino médio ainda, estudei com uma professora de geografia que tinha quase toda semana alguma reclamação para fazer com a gente. O salário baixo, os seus problemas familiares decorrentes do salário baixo, a bagunça dos alunos, a péssima infra-estrutura do colégio, os problemas econômicos do país, a falta de honestidade dos políticos, a nossa falta de interesse pelas aulas dela. Passava longos minutos reclamando, esbravejando, enfim, praticamente armava um barraco. No restante do tempo, quando estava de bom humor, falava do seu adorado cachorrinho, das suas viagens ao exterior, da sua casa de praia, ou dos seus filhos bem nutridos e alimentados com leite de cabras montanhesas. Talvez ela nunca tenha percebido, mas essas histórias entravam em contradição com certas reclamações dela.
Tive uma professora de biologia na oitava série que tinha uma bunda maravilhosa. Ela não sabia muito de biologia, mas aquela bunda era um talento. Ela tinha vocação para ser dançarina ou coisa do tipo. Embora a aula fosse basicamente uma leitura dos capítulos do livro, onde ficávamos sublinhando algumas frases que ela achava importantes, úteis ou apenas legais, todos, ou quase todos, prestavam atenção em cada palavra dela, e também nas cruzadas de perna que ela dava com aquelas saias apertadíssimas que usava. Ela era uma professora muito dedicada, tanto que ia nas mesas de cada aluno para tirar dúvidas. Eu sempre tinha dúvidas, mas eu gostava mesmo era quando algum colega sentado ao meu lado tinha dúvidas. Ele dizia: “Olha aqui, professora, não estou entendendo esse trecho do livro”, e ela, míope que era, abaixava-se cada vez mais para enxergar. Em agradecimento ao meu colega, eu tirava muitas dúvidas com a professora. De certo modo, aprendi muito sobre anatomia nesse ano.
Na sexta série, tive um professor de educação física que, digamos, não era o exemplo em pessoa, quando se tratava de esportes e exercícios físicos, pois a barriga dele tinha o formato de um ovo de avestruz, o que lhe dava, junto com seu farto bigode, um aspecto muito parecido com o Leôncio. Foi terrivelmente engraçado quando ele tentou nos ensinar como fazer alongamentos. Ele disse: “Olhem, é assim que se faz”, e tentou alcançar os dedos do pé, até que depois de muito esforço entregou os pontos e disse: “Muito bem, vocês captaram a idéia, não é? Agora tentem fazer”. Mas quando o assunto era apitar nas partidas de futebol, ele apitava como ninguém.
Esses são alguns dos professores que ainda ocupam algum espaço na minha memória. Mas entre todos o que mais me marcou foi um professor de matemática. Era um senhor de idade, tinha bigode e cabelos brancos, usava óculos grandes e penteava os cabelos para o lado. Parecia o Gepeto. E como carpinteiro que trabalha a madeira, moldou da mesma forma o talento bruto que eu tinha com os números, e talhou muitas idéias em mim. Ele me incentivou e encorajou quando outros me diminuíram. Acreditei que eu poderia conseguir algo melhor para mim com o meu esforço. Estudei bastante e tentei compensar os anos em que não levei os estudos a sério. Consegui passar em concursos e hoje tenho um bom emprego. Honestamente, não sei se estaria aqui se não tivesse estudado com ele. Talvez tivesse pego outro rumo na minha vida, ou quem sabe tivesse percorrido metade do caminho que escolhi. Só sei que, se não o tivesse conhecido, aquele ano no colégio teria sido mais um ano perdido. E é por causa de professores como ele que eu acredito que uma boa educação pode mudar os rumos da vida de uma pessoa.